
CLARK, Ruth Colvin; MAYER, Richard E. E-Learning and the Science of Instruction: Proven Guidelines for Consumers and Designers of Multimedia Learning. 3rd Edition, Pfeiffer, 2011 (Kindle Edition). Resenha de João Mattar.
Bibliografia básica do curso Multimedia.
About this Book
O livro é sobre o que funciona em e-learning, baseando-se não em opiniões, mas em pesquisas empíricas. Para a 3 ed., todos os capítulos foram atualizados, além da adição de um novo capítulo sobre o básico do treinamento baseado em evidências. Para ilustrar as orientações, foram adicionados novos storyboards sobre um curso síncrono e assíncrono de Excel, além de um curso assíncrono de vendas farmacêutica. Há ainda um guia para o instrutor, disponível online (mas é preciso registrar como professor e esperar retorno).
Introduction
O texto, cujos exemplos são focados na aprendizagem da força de trabalho (apesar de válidos para educação em geral), trabalha uma oposição entre dois modelos de e-learning: autoestudo (assíncrono) e aulas virtuais com professores(síncronas), que me parece inadequada, pois há autoestudo síncrono (mesmo sem professor, que envolve p.ex. a interação com colegas) e principalmente ead assíncrona com professor (com uso p.ex. de fóruns).
Chapter 1. e-Learning Promise and Pitfalls
O texto trabalha também com uma diferenciação entre e-learning direcionado à aprendizagem individual e objetivos de desempenho organizacionais, assim como entre e-learning voltado a oferecer informação e construir habilidades específicas relacionadas ao trabalho.
Segundo os autores, os métodos mais apropriados de e-learning dependem de: (a) os objetivos do treinamento (p.ex. informativos ou performativos), (b) as habilidades dos aprendizes (p.ex. se eles conhecem mais ou menos as habilidades) e (c) fatores ambientais diversos (como p.ex. limitações tecnológicas, culturais e pragmáticas).
E-learning é definido como instrução oferecida em um dispositivo digital (como um computador ou dispositivo móvel) cujo objetivo é favorecer o aprendizado. Novamente, são diferenciadas as formas de e-learning guiadas por professores (síncronas) daquelas planejadas para autoestudo (assíncronas).
O capítulo discute estudos que apontam que não há diferença nos resultados de aprendizado entre cursos presenciais e a distância, mas que alunos em cursos online bem planejados e implementados aprenderam significativamente mais do que em cursos cujas atividades não foram cuidadosamente planejadas e que foram implementadas com problemas tecnológicos. A conclusão é que não é o meio, mas antes os métodos instrucionais que causam o aprendizado. Os mesmos métodos causam os mesmos resultados, independente do meio. Entretanto, é importante reconhecer a especificidade de cada mídia.
E-learning permite treinamento customizado, envolvimento, uso de multimídia e aceleração da expertise por cenários. Os autores definem envolvimento comportamental como qualquer ação que um aprendiz realiza, como apertar o botão próximo, digitar uma resposta, fazer uma escolha em uma lista etc., enquanto o envolvimento psicológico seria o processamento cognitivo do conteúdo que leve à aquisição de novos conhecimentos e habilidades, como prestar atenção em material relevante, organizar materiais mentalmente em uma representação coerente e integrá-la com conhecimento prévio. Para os autores, a aprendizagem só ocorreria com o envolvimento psicológico. Apertar um botão próximo ou jogar um game podem envolver altos níveis de atividade comportamental, mas pouca atividade psicológica, enquanto assistir a uma animação explicada com narração por áudio envolve pouca (ou nenhuma) atividade comportamental, mas poderá levar à atividade psicológica necessária para o aprendizado. Ou seja: altos níveis de atividade comportamental não se traduzem necessariamente no tipo de processamento psicológico que favorece o aprendizado.
São apontadas também as armadilhas do e-learning: abuso de recursos multimídia (acima da capacidade do sistema cognitivo humano), subutilização desses recursos, falta de foco nos objetivos e abuso da aprendizagem por descoberta.
Os autores diferenciam também o e-learning voltado para informar (transmitir informações) do e-learning voltado para realizar (desenvolver habilidades específicas). Muitos cursos contêm os 2 objetivos. O e-learning performativo (voltado para realizar) pode ainda ser dividido em 2 tipos de objetivos: processuais ou procedimentais (procedural, que promovem a near transfer, em que os passos aprendidos no treinamento são idênticos ou muito similares aos passos requeridos no ambiente de trabalho) e estratégicos (que promovem a far transfer, abordagens gerais para tarefas que não possuem abordagens ou resultados esperados corretos, ou seja, as situações apresentadas no treinamento podem não ser exatamente as mesmas que ocorrem no trabalho).
Interessam-me particularmente essa transferência distante (se é que essa é uma boa tradução) porque ele questiona a rigidez com que muitas vezes o conceito de objetivos de aprendizagem é aplicado. Essas tarefas requerem que o trabalhador adapte as orientações gerais a diversas situações de trabalho. Tipicamente, algum elemento de resolução de problemas está envolvido. O trabalhador precisa, em geral, usar julgamento ao realizar essas tarefas porque não há uma abordagem correta para todas as situações. Aulas que envolvam transferência distante incluem praticamente todo treinamento de soft-skils, supervisão e cursos de administração, assim como habilidades de vendas.
O capítulo explora ainda o que chama de arquiteturas de e-learning: receptiva (aquisição de informações), diretiva (reforço de resposta, passo a passo) e descoberta guiada (construção do conhecimento, como p.ex. com games e simulações), que caminham da baixa à alta interatividade.
Mas todas essas orientações devem ser adaptadas em função dos objetivos do seu treinamento, no conhecimento prévio dos seus aprendizes e do ambiente em que vocês vai desenvolver e implantar seu treinamento.
Leituras sugeridas:
Evidence-Based Training Methods: A Guide for Training Professionals
Learning by Viewing versus Learning by Doing: Evidence-Based Guidelines for Principled Learning Environments
Media Will Never Influence Learning
Should There Be a Three-Strikes Rule Against Pure Discovery Learning?
Chapter 2. How Do People Learn from e-Courses
O capítulo insiste que é essencial combinar teorias de aprendizagem com pesquisas que comprovem resultados de e-learning, defendendo o aprendizado centrado no aprendiz:
quando você foca muito no papel da tecnologia de ponta, pode ignorar o papel do aprendiz
O potencial revolucionário de várias tecnologias, como cinema, rádio, televisão e computadores, não teriam sido alcançados:
A razão para a decepcionante história da tecnologia educacional pode se justificar pelo fato de que os instrutores esperavam que os aprendizes se adaptassem à tecnologia, e portanto não planejaram ambientes de aprendizagem consistentes com a forma pela qual as pessoas aprendem.
Os autores defendem que as pessoas têm 2 canais para processar materiais – visuais/pictóricos e auditivo/verbal, que cada canal tem uma capacidade limitada de processar informações em cada momento e que o aprendizado ocorre quando nos engajamos em processamento cognitivo ativo adequado. Nesse sentido, ocorrem 3 processos cognitivos importantes no aprendizado: atenção e seleção de palavras e imagens, organização mental dessas palavras e imagens, e integração dessas palavras e imagens com conhecimento prévio.
Deve-se lembrar da limitação de processamento em cada canal. Há 3 tipos de demandas na capacidade de processamento cognitivo: processamento alheio (extranous, que não suporta os objetivos de aprendizagem), processamento essencial (o foco do material) e processamento generativo (compreensão mais profunda, basicamente organização e integração do material, baseada na motivação do aprendiz em dar sentido a ele – que pode ser estimulada por exercícios práticos e exemplos trabalhados).
Outro ponto essencial é a capacidade de recuperação do conhecimento, quando necessário:
Para que a transferência tenha sucesso, cursos online precisam incorporar o contexto do trabalho nos exemplos e exercícios práticos, assim o novo conhecimento armazenado na memória de longo prazo conterá ganchos adequados para recuperação.
São indicadas várias leituras com o próprio Mayer como autor.
Chapter 3. Evidence-Based Practice
Os autores reforçam que as sugestões do livro estão fundamentadas na prática baseada em evidências, defendendo que as técnicas instrucionais devem estar baseadas em resultados de pesquisas e teorias baseadas em pesquisas. Nessa direção, são mencionadas várias referências recentes e propostos 3 tipos de questões de pesquisa: o que funciona? quando funciona? e como funciona? Há uma preferência dos autores por métodos comparativos de análise, com grupos de controle, assim como por medidas quantitativas.
São propostos 3 critérios para se levar em consideração em comparações experimentais: controle experimental (tendo apenas o tratamento instrucional como diferença), distribuição randômica dos aprendizes e medidas apropriadas (como média, desvio padrão e tamanho da amostra).
Há uma interessante reflexão sobre por que um experimento pode não mostrar efeito instrucional: o tratamento instrucional pode realmente não ter influenciado a aprendizagem; houve um número insuficiente de aprendizes nos grupos experimentais e de controle; a medida de aprendizagem não foi sensitiva o suficiente para detectar diferenças na aprendizagem; os grupos de tratamento e de controle não eram diferentes o suficiente; os materiais de aprendizagem eram muito simples para todos os aprendizes, assim nenhum tratamento adicional foi útil.
São enfatizadas 2 medidas estatísticas: os resultados devem ter probabilidade menor do que .05 (p< .05) - ou seja, há menos do que 5% de chances de que a diferença não reflita uma diferença real entre 2 grupos; e mostrar um tamanho do efeito igual ou maior do que .5 (ou seja, mais do que a metade do desvio padrão).
O capítulo termina com um resumo de 5 questões para considerar ao avaliar pesquisas: a) quão similar são os aprendizes na pesquisa em relação aos seus aprendizes? b) as conclusões são baseadas em um design de pesquisa experimental? c) os resultados experimentais foram replicados? (aqui são citadas várias fontes, como The Review of Educational Research e Educational Psychology Review, além de diversos Hadbooks), d) o aprendizado é mensurado por testes que medem aplicação?, e e) a análise dos dados reflete significância prática assim como estatística?
Os autores sugerem também a importância de desenvolver mais estudos de meta-análise, comparando a educação presencial e o e-learning.
Chapter 4. Applying the Multimedia Principle: use words and graphics rather than words alone.
As pessoas aprendem mais profundamente por palavras e recursos visuais (graphics) do que somente por palavras? Baseando-se em teoria cognitiva e evidências de pesquisas, os autores recomendam que cursos de e-learning incluam palavras e recursos visuais, em vez de apenas palavras, o que ajudaria no processamento ativo da informação. Este seria o princípio multimídia. E os recursos visuais devem ser planejados junto com as palavras, não somente a posteriori.
Recursos visuais podem ter diversas funções: decorativas, representacionais, relacionais, organizacionais e transformacionais. São então apresentados diferentes usos para cada um desses tipos de recursos visuais.
O princípio multimídia funcionaria melhor para novatos do que para aprendizes mais experientes em relação ao assunto. Além disso, animações seriam mais adequadas do que imagens estáticas em poucos casos, como aqueles que envolvam procedimentos e habilidades manuais complicadas.